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Legado de Augusto Boal ganha circuito cultural com exposição e montagens teatrais

Programação reúne acervo histórico no Planetário e espetáculos na Gávea e em Botafogo para debater questões políticas, sociais e o trabalho no Brasil

A trajetória artística e política do dramaturgo, diretor e ensaísta Augusto Boal (1931-2009), criador do Teatro do Oprimido, é tema de uma série de iniciativas culturais marcadas por duas peças e uma mostra documental. Realizados a partir do acervo do Instituto Augusto Boal, localizado na casa de Ipanema onde o dramaturgo viveu com a psicanalista e atriz Cecília Boal, os eventos ocupam espaços na Gávea e em Botafogo para resgatar a contribuição do autor para o teatro brasileiro e internacional.

Sede da instituição responsável pela conservação da memória do dramaturgo, a casa em Ipanema foi o centro de convivência de Boal e Cecília, que se conheceram na Argentina há 60 anos e compartilharam 43 anos de união pessoal e artística. Segundo a presidente do instituto, o humor articulado à reflexão política é o elemento central que mantém a produção do marido atual. Cecília destaca que as temáticas engajadas e o tom cômico perpassam toda a obra e avalia que, se Boal estivesse produzindo no contexto atual, o cenário político do país seria o foco principal de seus escritos. Ela também recorda o perfil pessoal do diretor, descrevendo-o como uma pessoa alegre e de convivência bem-humorada.

No Teatro Municipal Domingos Oliveira, situado no Planetário, na Gávea, a exposição organizada pela curadora Daniela Camargo em parceria com Cecília Boal reúne fotografias e cartazes originários do acervo do instituto. A mostra destaca a passagem de Boal pelo Teatro de Arena de São Paulo, sua prática pedagógica e o alcance global de suas propostas teatrais. Daniela pontua que a exibição de itens materiais permite preservar a memória efêmera do teatro e registrar o papel de Boal na formação de atores dentro e fora do país.

O trabalho de tratamento, digitalização e codificação dos documentos do acervo foi conduzido pela historiadora Célia Costa, disponibilizando a consulta digital no site do Instituto Augusto Boal. O acervo físico está dividido entre o Museu Lasar Segall, em São Paulo, o Instituto Moreira Salles, no Rio, e a residência de Cecília.

O mesmo espaço do Teatro Municipal Domingos Oliveira, no Planetário, recebe o solo “Hamlet 16×8”, protagonizado pelo ator Rogério Bandeira e dirigido por Marco Antonio Rodrigues. Em cartaz até 27 de setembro, a montagem toma como ponto de partida o livro autobiográfico “Hamlet e o filho do padeiro: memórias imaginadas”. O espetáculo entrecruza a biografia de Boal com a trajetória de Iberê Bandeira de Melo, pai do ator e advogado que atuou na defesa de presos políticos na ditadura militar.

A peça enfatiza o momento em que Boal decidiu se afastar da repercussão alcançada pelo Teatro de Arena para realizar itinerâncias no Nordeste. Nessa transição, o dramaturgo entrou em contato com os conflitos agrários da região, com os conceitos de alfabetização de Paulo Freire e com as ligas camponesas, fatores que redefiniram sua visão sobre a função social do teatro. Rogério Bandeira pondera que a obra de Boal contrapõe a tendência contemporânea de isolamento associada ao uso de tecnologias e redes sociais ao defender a dimensão coletiva da vida humana. O diretor Marco Antonio Rodrigues ressalta a capacidade do autor de reavaliar continuadamente suas técnicas e teorias para transformá-las em patrimônio público.

Em Botafogo, o Teatro Poeirinha recebe a estreia da montagem “Revolução na América do Sul”, com direção de Wellington Fagner. A temporada ocorre de terça-feira, dia 8, até 21 de outubro. Escrito há cerca de seis décadas, o texto acompanha o personagem José da Silva, um trabalhador em busca de meios para sanar a fome. Idealizada com a participação de Julian Boal, filho do dramaturgo, a encenação problematiza a distância entre o emprego e a garantia de subsistência digna, relacionando a narrativa original a dilemas atuais como o endividamento e a precarização das relações de trabalho.

A adaptação aproxima o protagonista da realidade dos trabalhadores de plataformas digitais por meio de uma cena em que José da Silva encontra um entregador uberizado. O ator Cássio Duque aponta que a montagem estabelece conexões com o quadro político e eleitoral contemporâneo ao incluir passagens ambientadas na Câmara dos Deputados e uma veiculação de propaganda política conduzida por um ex-patrão do protagonista. De acordo com o diretor Wellington Fagner e com Julian Boal, a encenação utiliza a estrutura da comédia trágica para provocar o público diante da ilusão de autonomia no trabalho informal, sem oferecer soluções prontas, mas estimulando uma postura crítica por meio do humor.


Fonte: oglobo.globo.com / O Globo

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