Conceito de ‘realismo esperançoso’ de Ariano Suassuna ganha relevância em meio a cenários de crise
Reflexão do dramaturgo ressurge em redes sociais e debates acadêmicos como alternativa entre o otimismo ingênuo e o pessimismo amargo.

Mais de uma década após a sua morte, ocorrida em 2014, uma célebre definição do dramaturgo pernambucano Ariano Suassuna voltou a circular com intensidade em redes sociais e grupos virtuais. Ao se declarar um “realista esperançoso”, em contraponto tanto aos otimistas quanto aos pessimistas, o escritor deixou uma perspectiva de enfrentamento do cotidiano que tem sido resgatada por leitores expostos a um fluxo contínuo de más notícias.
A premissa defendida por Suassuna propõe encarar a realidade sem filtros, mas sem abandonar a motivação para transformar o contexto ao redor. Em sua visão, o otimismo ingênuo gera inércia ao projetar que os entraves se resolverão sozinhos, enquanto o pessimismo amargo paralisa e esgota ao tratar qualquer esforço como inútil. O realismo esperançoso atua como um ponto de equilíbrio, mantendo os pés no chão e utilizando a esperança como elemento condutor para a ação.
O reaparecimento da frase relaciona-se ao desgaste provocado pelo volume de conteúdos negativos que circulam nas plataformas virtuais. Diante de problemas concretos, discursos puramente otimistas soam vazios, ao mesmo tempo em que a postura abertamente pessimista retira o incentivo para o engajamento e a continuidade do trabalho.
A aplicação prática dessa mentalidade no dia a dia baseia-se na separação entre o diagnóstico da situação e a tomada de atitude, estruturando-se em três passos simples:
– Identificar o problema de forma clara, sem minimizar nem exagerar sua gravidade;
– Escolher uma medida pequena e viável dentro do alcance individual, em vez de tentar resolver questões globais;
– Ajustar a rotina de consumo de informações, limitando o tempo de exposição ao noticiário sem deixar de se manter informado.
A partir desse pensamento, definem-se três posturas distintas perante momentos difíceis. O otimista ingênuo espera que tudo se solucione sem intervenção; o pessimista amargo desiste antes mesmo de tentar; e o realista esperançoso reconhece a crise e, ainda assim, toma a iniciativa de agir.
Nascido em 1927, na Paraíba, Ariano Suassuna consolidou-se como um dos nomes mais expressivos da literatura nacional. Foi autor de “Auto da Compadecida”, criador do Movimento Armorial — focado na valorização da cultura popular do Nordeste — e integrante da Academia Brasileira de Letras (ABL). A atualidade de sua reflexão continua a ser citada em produções acadêmicas e análises sobre momentos de crise, a exemplo de publicação recente do Instituto Humanitas Unisinos (IHU), instituto de pesquisa da Unisinos.
Além da esfera literária, a busca por esse equilíbrio entre lucidez e persistência tem sido aplicada em áreas como saúde mental, produtividade e engajamento social. A ideia de preservar energia e manter a capacidade de ação em cenários adversos permanece em debate na própria ABL e serve de orientação para a manutenção do foco no cotidiano.
Fonte: olhardigital.com.br / Olhar Digital
