Cia Grito aposta em “Alice no País das Maravilhas” para retomar grandes narrativas e impulsionar teatro musical em Florianópolis
Montagem com estreia marcada para 27 de setembro no Teatro Ademir Rosa marca a volta do grupo catarinense às histórias clássicas e evidencia os desafios estruturais e financeiros do mercado local.

A Cia Grito prepara para o dia 27 de setembro a estreia de sua nova montagem, “Alice no País das Maravilhas”, que será apresentada no Teatro Ademir Rosa, em Florianópolis. O espetáculo marca o retorno do grupo às adaptações de narrativas consagradas pelo público, após um período em que a companhia concentrou suas energias em produções autorais, shows musicais e recortes de obras da Broadway.
De acordo com Isabelly Ferreira, presidente da Cia Grito, a última história conhecida montada pela instituição havia sido “Malévola”. Nos anos seguintes, o repertório passou a incluir produções como o autoral “Nem Tão Felizes Pra Sempre”. A escolha de “Alice” atende ao objetivo de resgatar uma narrativa completa e reconhecida, capaz de dialogar simultaneamente com o público infantil e adulto devido à complexidade subjacente à trama. Conforme aponta Isabelly, trata-se da primeira vez em três anos e meio que a trupe volta a encenar uma história de ampla circulação popular.
A preparação para a estreia exigiu uma rotina intensa de ensaios, concentrados aos domingos e expandidos para sábados em período integral em fases decisivas da produção. Antes mesmo das audições, o elenco passou por um processo de imersão que estimulou os artistas a experimentarem diferentes personas do enredo, facilitando a identificação de afinidades e familiarizando o grupo com o universo da obra antes da seleção oficial.
Elenco e preparação técnica
O grupo reúne artistas com trajetórias diversas nas três vertentes fundamentais do teatro musical: atuação, canto e dança. Laura Sperotto, intérprete da protagonista Alice, iniciou sua trajetória artística aos seis anos de idade e consolidou seu interesse profissional em 2017, após participar de um musical sobre a capital catarinense. Integrante da Cia Grito desde 2023, ela recorreu ao estudo do roteiro, audição de filmes e criação de playlists temáticas para conceber a personagem, além de manter acompanhamento fonoaudiológico duas vezes por semana. A artista relata que a aprovação superou um momento de forte insegurança profissional.
Outro destaque do elenco é Finnick Matteussi Leal, natural de Rio do Sul e criado em Trombudo Central, que interpreta Absolem, a lagarta. Com formação inicial na dança — área na qual atuou por cerca de dez anos — e estudos posteriores em teatro, ele se mudou para Florianópolis em 2023 para cursar Artes Cênicas na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Além de atuar, Finnick assumiu pela primeira vez a direção coreográfica de uma montagem da companhia, o que ampliou sua perspectiva ao orientar os colegas também a partir de fora do palco.
Para integrantes como Mayki Medeiros, a multidisciplinaridade é indispensável no gênero, embora cada artista tenda a se destacar em uma das áreas. A interpretação é apontada como eixo central, responsável por conectar a execução de músicas e coreografias à construção dramática. No mesmo sentido, Finnick avalia que, embora a formação múltipla seja ideal, a receptividade ao aprendizado, a humildade e a determinação são cruciais para ingressar no grupo.
Desafios estruturais do mercado local
Apesar do crescimento do interesse do público em Florianópolis, os membros da companhia apontam que a atividade ainda não assegura sustentabilidade financeira para dedicação exclusiva na cidade. A diretora Anael Kruscinsck e a presidente Isabelly Ferreira pontuam que, embora exista demanda, o setor esbarra na escassez de recursos financeiros, na limitação de grandes teatros e na forte concorrência por datas, fatores que impedem temporadas longas.
O cenário difere expressamente dos eixos de São Paulo e Rio de Janeiro, onde musicais permanecem em cartaz por meses. Na capital catarinense, conseguir manter um espetáculo por três ou quatro dias consecutivos em teatros públicos é considerado raro. Os custos elevados com cenário, figurino e ensaios também impactam o preço final dos ingressos, barreira que, segundo Anael, poderia ser abrandada por meio de políticas públicas de incentivo. Mayki acrescenta que a viabilização das produções locais ainda recai pesadamente sobre investimentos dos próprios artistas, demandando maior participação de órgãos públicos e patrocinadores.
Histórico e atuação cultural
Fundada originalmente por artistas entre 2003 e 2005 e formalizada como associação cultural em 2011, a Cia Grito conta atualmente com mais de 60 integrantes. A estrutura associativa favorece o modelo de trabalho coletivo que sustenta o grupo, reconhecido em três ocasiões como a melhor companhia de teatro de Santa Catarina.
Além das temporadas comerciais, a associação desenvolve projetos voluntários, com apresentações voltadas a pacientes do Hospital Infantil Joana de Gusmão — atividade mantida por quase dez anos antes de uma interrupção pandêmica e posterior retomada — e à APAE.
Para a direção, o fortalecimento da companhia reflete o potencial de consolidar a região como um polo produtivo do gênero. A intenção de parte dos artistas é permanecer em Florianópolis e colaborar para transformar a capital catarinense em um novo eixo para o teatro musical brasileiro, ampliando o alcance e a visibilidade das artes cênicas locais.
Fonte: cbntotal.com.br / CBN Total
